domingo, 29 de novembro de 2009

E a desilusão?
Como o centro da terra,
Nada alcança o meu coração.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

O AQUÁRIO


Os dias se passaram como férias de verão. As incertezas recheavam os fins de tarde, me fazendo flutuar naquele vapor incessante, rumo a sabe-se lá onde. Eram três meses e vinte oito dias de inércia. Quando a guerra chega para quem se ama, não há remédio melhor que a dúvida. Agora que me via próxima ao que me forcei não imaginar, não me envergonhava de pedir a deus que rolasse os dedos sob os ponteiros. O torpor da espera, de fato, já me parecia mais confortante.
Abri os armários girando lentamente as maçanetas, como se não houvesse tempo a perder. Olhei para as fileiras desordenadas de cabides mal pendurados e puxei o que me parecia o traje mais óbvio. Nunca havia me considerado pessimista, porém, diante das circunstancias mais básicas de uma batalha e das porcentagens que assombravam as manchetes de jornal, não me renderia a audácia de usar um amarelo colibri. Era tempo de parir o rombo que habitaria meu peito a partir daquela manhã.
O café da madrugada anterior permaneceu intacto e altamente atraente. Engoli o que restava sem notar o aviso amargo da borra que escorria garganta abaixo. No momento, aquele gosto não poderia ser mais apropriado.
Desde que ele se fora, nunca me permiti pensar que voltaria. Aos 9 anos de idade, minha mãe me dera um aquário com um casal de peixes. Um dia, Antônia girou sob a nadadeira e eu pude notar a saliência. Planejei tudo para a chegada dos filhotes e criei uma lógica que, de acordo com o limite máximo já registrado de girinos, todos os pequenos já teriam nomes, levando em conta a probabilidade básica dos sexos. Passei dias com a cara grudada ao vidro, esperando qualquer sinal.
Em uma manhã de chuva rala e sol indeciso, acordei com minha mãe ao pé da cama. “Eles comeram. Isso acontece, minha filha. Era provável.”. Desde então, se eu cultivasse algum desejo por qualquer coisa, eu não poderia me convencer de que era possível. O mais provável seria, para sempre, inatingível.
Caminhei alguns metros e logo notei o ruído de portas vizinhas anunciando outros passos que acompanhavam minha marcha fúnebre. Por algum motivo, aquelas mulheres pareciam esconder uma esperança velada. Como poderiam? Como seriam capazes de sorrir do que não sabem ser o destino que lhes agradavam?
Caminhei até a porta do cais, cedo demais. O barco apontava ao leste deslizando tão lentamente quanto as nuvens escuras que encobriam o sol. Um baque, um fluxo de alguma substancia muito traiçoeira invadiu minhas aterias. Me apoiei em um tronco tão desequilibrado quanto eu. Era uma chuva rala que batia em minha nuca, arrepiando-me não pela umidade e sim pela lembrança. O sol entrava por dentro das nuvens e se desfazia delas com tal descompromisso, que, de repente, fui transportada à aquela manhã onde a espera havia desabrochado em tragédia.
Os peixes haviam comido os filhos assim como eu havia me alimentado de uma esperança muda que, agora, gritava por todos os lados. Ele não voltaria, era a afirmação de um provável nada hesitante. Mergulhei naquela chuva de maneira que, se fisicamente possível, haveria agonizado em poucos segundos. Logo notei que o barco saltara do horizonte a beira e todos os navegantes estavam infernalmente parecidos.
Tentei me livrar das lágrimas acumuladas que prejudicavam minha visão, mas foi inútil. A correnteza que partia do meu peito havia escolhido meus olhos para se esvair. O desespero que me tomava começou a soar como pretensão, pois os casais se formavam lentamente, deixando um exército de desilusão para trás.
Não quis esperar para que o cais vazio me acordasse com a notícia que já compunha a última estrofe de minha vida, me virei sem pensar duas vezes e me juntei ao grupo que me pertencia. De tanto imaginá-la, a caminhada de volta poderia ter sido feita de olhos fechados, ao menos o desfecho não seria desavisado.
“Isabel!”. E assim eu descobri: a esperança não é amarga. Ela é doce. Como um beijo debaixo de uma chuva rala e de um sol indeciso.

sábado, 7 de novembro de 2009

Ancorada em tempos de inércia
Sem ter Deus para escutar.

terça-feira, 3 de novembro de 2009


Morto. Quem diria que eu poderia sentir a febre de existir logo quando atingi o prazo de validade. Os últimos segundos que me restam desse torpor que precede a escuridão soam como eternidade. Morto, abandonado, sozinho, largado a esmo como quando vim ao mundo. Esta é a cena de minha partida.
Olhe bem aí de cima: este asfalto úmido que anuncia o temporal que me lava e leva a alma é o mesmo onde à minutos atrás meus pés seguiam quentes. Não há espaço para lamentação e creio que nem tempo para tal ignorância. Da minha vida pouco soube enquanto pude respirar. Antes de chegar até esta ruela cinzenta, eu pensei no futuro, coisa que nunca havia feito por ter medo da desilusão.
Sempre ridicularizei os sonhadores. Infelizes filhos bastardos do próprio planejamento, afinal, qual o tamanho da pretensão dos quais desenham sua história? Infinita. Assim como minha vida teria sido se eu não houvesse me igualado aos que acabo de rebaixar.
Mas assim me fiz: burro e ingênuo como nunca havia me permitido. Larguei minha mulher, filhos e o micro-ondas que ainda devia sete prestações. Desisti do que me disseram ser a felicidade e fui à busca do meu maior potencial: o desapego. Nunca criei laços, menos ainda acreditei nos nós que eram amarrados aos meus pulsos. Regina mal sabia que o casamento as pressas vinha acoplado somente às dívidas que acumulei e nunca ao amor que simulei.
Dito isso, as lágrimas escorreram sob os poros mofados da cinquentona que deduzi ter sido um dia, absolutamente tolerável. A verdade é que as entranhas de Regina me atacavam a rinite. A poeira dos anos parecia ter se acumulado como nas frestas de um baú em decomposição. Regina me pôs pra fora aos gritos, acusando-me de desistir da infelicidade conjuntural que assombrava todo o lar. Sem recusa ou descontentamento, catei o que me era de subsistência e não procurei julgar o que fazia daquela mulher complacente com a própria desgraça.
Se aprendi alguma coisa nestes sessenta e oito anos de vida foi a nunca sair da zona de conforto, afinal, qual a utilidade de entender o que não há como concordar? A fadiga me perseguiu até meus últimos dias. Vivi morto para não ter com o que me preocupar. Ensinei aos meus filhos tudo o que pude para torná-los cientes da acidez de minha herança genética e deles recebi em troca tudo o que cultivei: desafeto. “Bravo!”, eu disse. Crias ácidas e preparadas para saber colher as safras do que nunca souberam ter plantado.
E cá estou sendo avisado por pulmões e artérias que não me resta mais muito tempo. Cá estou eu colhendo o que pela primeira vez admiti ter plantado. Esta morte insignificante é resposta a minha insensatez. Nesta altura, se não houvesse me perguntado do futuro e tivesse mantido os passos para não se sabe onde, ao menos alguns bons dez ou quinze dias antecipariam a morte que havia reservado para mim. E cá estou eu de frente a única coisa que planejei e nem mesmo ao olhar de todos os santos que desprezei pude concretizar. Eu planejei sofrer em minha partida, nunca imaginei ter que suportar este olhar sarcástico e pouco trágico nos meus últimos suspiros.
Contra a lamentação, decidi ignorar estes devaneios e aproveitar os últimos espasmos que minhas pálpebras me concedem neste instante. Ao olhar pra esquerda, pude entender o motivo de estar esparramado ao chão, sendo inundado pelo sangue que drena meu crânio lentamente, como se não houvesse pressa.
Eu fui assassinado. Morto pela fraqueza de outrém. Fui esmagado pelo ser que mais foi vitima de meu desprezo em toda minha vida. Fui morto pelo homem, um infeliz suicida que espalhou meus objetos pela ruela fedida que nos rodeava. Fui morto. Não tive escolha nem a chance de realizar a única coisa que planejei.
O ultimo ruído que pude escutar foram as balas do meu revolver rolando bueiro abaixo. Levando consigo o futuro que eu havia me permitido escolher e a busca do meu maior potencial: traçar o meu fim com minhas próprias mãos.