quarta-feira, 17 de dezembro de 2008




leve dezembro



vovó, vai embora com deus.
eu não pude dizer
que você não iria gostar
da terra, lá no fundo ficar.
mas não preocupa-te,

já mandei avisar:
quando um cadáver eu virar,
debaixo da terra não quero estar.

pedi também pra lembrar,
que no banco da praça
é pra me colocar;

minha alma contigo já vai estar,
mas meu corpo, oco,
pra senhora
irá contemplar:

o que o doutor não deixou você ver
meses antes de morrer,
naquela sala azul
a visão da praça, você não pode ter.




(escrito em lágrimas, para aquela que pouco pude dizer.)

domingo, 7 de dezembro de 2008

LEIA-ME



descansa sua alma em meu vasto descaso,
que dela tu me destes mais do que preciso.
deixa ser estranho o que tu sabes;
deixa ser novo o indeciso.

quero beijos bem dados,
onde o cansaço dos anos
se esconda atrás do teu sorriso;

quero tuas mãos marcadas,
espalmadas sem dó,
sem afago e sem carinho.

não quero palavras ensaiadas.
quero o silêncio,
aquele em que o corpo fala por si.

embrulhe teu egoísmo,
mande-o pra dentro de mim.
não desejo seu apreço
só quero admirar-me em ti.

tente me oferecer amor,
e te digo:
já não sei mais mentir.

domingo, 23 de novembro de 2008

perto do fim



eu fiz por merecer.
quis ao menos desvendar,
e procurar
tua vontade em mim:
sei que está.

se
queres me tirar
sentimento algum,
empenhar-me-ei no imaginar...

mas caberá a ti
construir o amor
pois aqui:
sei que não está.

domingo, 19 de outubro de 2008

não há oceano no mundo
que de conta de aguar
a dor que carrego
por ter que te deixar.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

descontrole



esse futuro cantado,
diariamente reafirmado,
desconstrói-se em pranto
no meu grito afobado;

zelado e enterrado
junto a escuridão do passado:
está este amor;
descrente e encardido
por destruição sabida,
a qual escrevi com tinta sem cor.

não veja-me insano,
bandido nem espartano.
impor a ti o eterno fardo
de carregar-me em gosto amargo
nunca,
foi o meu plano.

sábado, 4 de outubro de 2008

Beatriz ll




cabe em mim.
completando e levando tudo
a fora;
bem pra perto do fim.
embora,
minha tristeza se esvai assim...

num riso teu,
e numa fala piegas, eu
quero contrafazer:
felicidade minha tu carregas
no teu simples viver.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

orgulho e preconceito.



em grades enclausuro-me
sem ao menos reconhecer;
das chaves já não me lembro mais
onde poderiam padecer.

por mais:
basta-me um toque d'alma.
daquele que é feito sob medida;
que meu nome não carrega,
pois é de inspiração esquecida.

busco-te, desconhecido, a vida inteira.
imagino a mim, junto a ti;
ignoro-me pela culpa de não encontrar
já que quando de mim, parti.

ao despertar,
impulsionada pela arte que me preservou,
rezo pela sua metade, completando
e contemplando
aquilo que ninguém soube enxergar:
a metade que me restou.
muito pouco.




guardei-me pra te presentear
te incluir em minha confusão.

o fiz ainda pra te proteger
do mundo que sei decifrar,
qualquer seja a direção.

de cor tenho suas reações
em versos recriados,
sustento as próprias impulsões.

te decorei pra me presentear
me exluir da minha confusão.

domingo, 13 de julho de 2008

nada, além da ausência de tudo
porém, confortável é meu nada
que nada traz, nada leva
sob esforços se constrói:
em vão.
pra curar-te,
meu querer inadequa-se.
pois não;

de onde nadas em correnteza oculta?
por onde passas se te tenho em clara penumbra?
e como responder?
se nada vou, nada penso;
e como viver?
se nada quero, nada existo.

pra que tanto?
se nada sou,
nada, além da ausência de tudo
mais nada...

sábado, 12 de julho de 2008



perdi-me em meu cantar;
das tantas fiz-me vigiar.
do que resta de mim,
a mim,
quis entregar.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

à mim.




se persistes, aconselho que saibas
nada terás de mim.
por horas infinitas viverás
distinguindo-se à burrice e ao vazio
da qual nem a si, sabe saber.

por essas e ainda por aquela outra
tu deverias se erguer
e no instante que te antecede
lembrar-me-ia, se me fosse em você
da qual aniquilava tua incansável sede
em tarde frígida, te fazendo renascer.

encerro-me em canto amargo
onde nele posso apodrecer.
boa moça já não mais; porém sei contrafazer.
a ti, nunca desejei
o melhor do prazer, encontrarás em mim
em outros corpos,
tu almejarás o fim.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

menina dos olhos.



meu empenho é alheio
descrente de qualquer auto-salvação.
meus desejos nutrem o seio
no qual descansa teu coração.

deixo ainda minhas palavras à te lembrar
dos dias claros que viveste
ao lado meu, quando nada temia
já que hoje - eu previa - estar a andar
em teu vazio, repleto de agonia.

acredite: você pode curar.
o meu desfecho é aquele que não se deve guiar;
mas, pelo resto da vida estaria a esperar
teu encanto, único, a implorar.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

auto retrato (2006)



no que eu faço
meu auto-retrato
me desenho um barco
por vezes afundo
ou me perco no mundo

me desenho folha
pra sentir como a bolha
anda feliz, se anda sozinha
mas me vejo criança
me tiro a lembrança
de um outono ventania
onde eu, folha
voava e sorria

num fim reluzente
eu me desenho contente
pra fingir que sou gente

mas no que eu faço
me apago todo dia
pra procurar minha semente
e perguntar se explicaria

por que eu, menina tão crescida
peço todo dia, não vente
pra deixar que eu procure a mim
isto, a mim, somente.
"(...) Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor."

Drummond.

terça-feira, 27 de maio de 2008

prólogo



hoje quis te dizer coisas que temia esquecer
mas do contrario se fez,
pois algo me tentou calar
como quando te vi pela primeira vez
e desde lá, sabia o que esperar.

em mente trancada te guardei para a escassez
que daquele momento em diante
sabia que iria passar;
pois só me restava procurar
pela certeza de te reencontrar.

porém hoje,
logo hoje
pude abstrair
que dos meus braços irás partir
e na ausência da certeza,
- eu vou esperar -
que a vida repita o que me fez
como quando te vi pela primeira vez.

sábado, 17 de maio de 2008

recicla-me


meu corpo oco;
não ha mais o que tentar.
o caso é raro, não ha doutor pra procurar.

pouco,
meu sangue é oco
de pele em pele, cansou de escorregar.

oco, de pouco em pouco
vem parando o coração, por pulsação
nada mais vai me restar.

em outro,
meu pouco; de tão oco...
só resta procurar
um outro corpo a ocupar.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

homem de deus (?)



vivia procurando
sentido nestes bancos de praça
e pelas ruas perambulando,
observando
uns traços tímidos de poucos gestos
neles, estive advinhando:

o que pela mente te passas, homem de deus?
se a minha só traz preocupação
com o futuro dos filhos teus.

pois mais do que apertar este coração
a miséria de tuas palavras pouco dirigidas
só mostra tua carne ensanguentada do mais puro desdém;
onde tua mulher, afundada em teu peito apodrecido
- no desespero -
suplica-te trégua a teu prazer egoísta,
pedindo que olhes vossos frutos virando carniça
pra alimentar mais uma noite de ruína. pois tu,
tu não mereces nem mesmo a minha rima.

terça-feira, 13 de maio de 2008

uma estrofe.



me recuso a te deixar;
desaprendi a te esquecer.
não viverei a vida a procurar
mulher minha, onde possa estar
que não em meu braços,
a entender
que mal não faço
se tudo o que posso querer
é minha vida viver
ao teu lado, a cada passo
nao quero esconder
a falta que me faz, já ainda sem partir
pior ainda é pensar:
em minhas manhãs, acordar
e não te ver sorrir.

sábado, 10 de maio de 2008

gosto quando te calas
ainda como em meio ao desespero
gosto quando me falas

gosto ainda de teus olhos, repletos de primavera
esperando sussurros, sinais vitais
de meu pobre coração despedaçado
que nada mais
dizer-te, quer; em tamanho abandono
de tua aparição, que como dádiva
só fez inundar meu outono.

gosto quando me falas
ainda como em meio ao desespero
gosto quando te calas.

terça-feira, 29 de abril de 2008

mãe


o nada não me apetecia
e assim sem aviso
de teu desejo fiz-me vida
presente maior nunca hei de receber
menos ainda planejo agradecer

ainda que penses o contrário
tenho algo a dizer

nada saberia valorizar tão calada,
que não o teu amor;
pois saiba que o mais sincero zelar
é aquele que a cada dia escuta-se menos
porém se firma em mais outro andar.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

eu não amo ninguém
e só sei falar de amor.

porque ver-te a ti, amor, tão longe
faz com que te ame ainda em profunda ausência
queria conjugar-te em todos os versos
e ainda lembrar-te, amor, de minha eterna carência

permita-me outra vez, amor, que sinta a imensurável dor
e ainda o experimento da morte por teu nome
já que dela revivi e dei-me de encontro ao louvor
de assistir teu fim, em meio ao desdém

mas eu não amo ninguém
e só sei que amo o amor.

 

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Ah! minha mulher;
que de mais pura deixou cair teus prantos
sobre meu peito amargo,
mágoas para os cantos

de imediato
fiz da atenção um trato
às curvas mais lindas que hão de vir
mesmo se te quiseres partir, pois;
já vi

nada mais te prende aqui
além da devoção que nunca te contei
quando entre meus braços fracos quase te falei
que mulher mais minha nunca quis;
pudera eu te fazer feliz.


(à, minha mulher)

quinta-feira, 3 de abril de 2008

nota-se um vazio
essencialmente meu
surge contornando um formato
estranhamente seu

nota-se um descuido
curvas de ombros descobertos
acentuando a impulsividade
de meus toques incertos

nota-se um desejo
teu mapa figurado
teu corpo prometido
com meu nome estampado

nota-se um sonho
do qual fui despertado.
o desgosto do comparecimento foi arrebatador
um semblante carregado, nula fixação ocular
mas ao passo das horas notava-se um esforço moribundo
vi-me de encontro a pistas de um futuro andar
lá pelo décimo segundo.

detestável imagem num espelho definhado
em puro descontentamento
meus prantos já não confortam o exilado pensamento
confinado, prometido e vulgarizado
num desfecho tantas vezes avisado
da solidão fiz-me ainda mais desatento...
preciso encontrar um verso
ao menos um
que entenda o que não sei mais sentir
que chore os beijos que desaprendi

preciso encontrar um verso
que explique a mim
o caminho contrário desse fim

procuro-te incansavelmente, verso
pra que traga de volta o ar que me privei
e agora perdi

a ausência que tanto cultivei
era pra te ver sorrir;

preciso encontrar um verso
prova memorável da razão, que...
nunca deixou de existir

meu amor,
não se perca em minha dor
pois só a mim cabe curar
o desespero de precisar te amar.
mas a saudade destes versos em preto e branco
perdidos na selvageria de meu pranto
quiseram afundar-me junto as ancoras da morte
atirando a mim, junto ao sangue gélido deste corpo
num ato súbito, como a brisa difusa dos mares do norte

ao passo desta demência refreada por vida
busco a verdade em meus versos vermelhos
a intencionalidade encoberta nos verdes
delicadeza em oscilações de estrofes rosadas
e o amor, tão isolado e preenchido
em meu único verso vazio.
aquela minha cor de mar se foi
minha cor de céu se foi
cor de terra se foi
de nuvem se foi
vento se foi
se foi
foi;
pois já não te ofereço mais nada
já que tirastes o que tinha
arrancastes o que te faltava

ainda que preso a ti
descrendo da selvageria de teu lábios
peço apenas
não me forces a andar a teu lado

e desconheço um rumo à retornar
ao passo ancorado que perdestes no mar
sórdido e frio
sem pensar
em tuas ultimas palavras
deixastes ir embora
em meu ultimo olhar


(encerro-me... os versos que restaram; esses já se foram)
tanto tempo que não via a dormideira
desfalecida por baixo d'um toque
e d'uma expectativa sem fronteira

quisera eu um dia ter-te plantado
ó dormideira
mas nao te mereces um jardim esburacado
donde adubei tanta tristeza e desgraceira.
há primavera na janela, pétalas ao vento
há inverno no quarto
e um outono aqui dentro.