terça-feira, 6 de outubro de 2009


Minha mãe me pariu. Desde lá não soube mais o que fazer com a vida e continuarei a não dar nenhum propósito a ela até que me provem que há sentido nesta ação obrigatória e um tanto cansativa.
É admirável a voracidade que observo em certos indivíduos quando se trata de agir. Pessoas vivem se apresentando para as outras como se, de fato, houvesse algo de interessante a ser partilhado. A verdade é que não há. O que é interessante, depois de depurado, não é nada além de algo que já foi sedutor. Assim, acabo de provar a mim mesma o fundamento de minha preguiça interminável: a minha própria descartabilidade.
Já diria Bauman em sua vida líquida que o “afrouxamento das relações” é muitas vezes o culpado da angústia geral dos homem modernos. Talvez, se minha mãe além de ter me parido me dissesse “Carolina, você será violoncelista”, hoje eu não estaria escrevendo sobre o caráter descartável de minha personalidade e, estaria agora, sentada na primeira fileira de uma orquestra, fascinando eternamente expectadores com minha técnica impecável.
Nem tudo são flores, ou quase nada. Por isto recolho-me a meu estúpido expansionismo mental e dou continuidade a esta lógica da qual já sou descrente. Nela me alimento todos os dias para nutrir minha defesa à falta de ânimo, pois nada é mais cansativo que explicar a um ser de sangue quente que nada há de se fazer com ele, se este não se convencer descrente de si.
A modernidade não se explica, menos ainda define o que somos. A verdade só existiu em épocas de caverna. Lá, onde nada havia de se fazer, o homem desenhava na tentativa de registrar a essência da vida: o nada. Pois do questionamento surgem as dúvidas, das dúvidas a angústia, e da angústia e do útero de minha mãe, eu surgi.
O que terei a dizer aos meus filhos? Desacreditem-se. A tristeza do homem é saber que há explicação, pois dela só se tira a crua verdade: o nada. Direi a eles que sejam violoncelistas, que se sintam felizes com a própria mediocridade, que se apresentem aos outros como se tivessem algo de interessante a falar e que, do fundo da alma – nunca do cérebro - sejam bobos, pois são os bobos que nunca se preocuparão com o que não tem explicação.
Direi para não serem como a mãe e suplicarei: assim que cuspidos de meu útero, saibam o que fazer com a vida, pois esta é a ação obrigatória mais incrível que há de haver.



Exercício de Técnicas de comunicação II. - Começar um texto usando "Minha mãe..." -