terça-feira, 28 de abril de 2009

O assassinato



Então fez-se homem, como há muito não tentava se convencer. Ergueu os ombros em direção ao frágil requinte de beleza que o aguardava, por muito, quase desistira de tocar-lhe os prantos. Estes sim, escorriam em tamanho descontrole sob a face taciturna da jovem de pele amendoada. Pensou e hesitou tamanho segundo que quase a fez despedaçar, mas ali, bem próximo ao desfecho que a traria de volta ao torpor da solidão, do próprio trato fez-lhe o seu criado. Caminhava ao lado seu, como se não desconhecesse o rumo que os vastos passos daqueles pés dascalços traçavam. Pois bem, não se importava com o destino de tal compasso mal pensado. Sabia ele que, por fim, de voltas a mesma partida, ela lhe traria o gosto amargo da verdade envolta em um veludo rosa-envelhecido. Este, tão úmido quanto suas têmporas, as quais já haviam desistido de lutar contra a maré que as mantinham submersas. Ainda assim, alongou os braços para que pudesse atingi-la antes de, como sempre fazia, iniciar-se em uma retórica incontestavelmente penosa, da qual ela mesma sabia não ter fim. Sentiu-a como bruma invadindo a brisa porosa de seu peito. Completando os vãos que se formaram enquanto escolhia viver a espera daquela descoberta, doce e serena, como nunca havia de haver. Enquanto ela... atirada em muro de mármore, estraçalhada em pequenos cascalhos que, desta vez, não se uniriam nunca mais. A dor era sua liga. Ele a matou.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

lá no alto




a roda gira em torno da canção.
quem mais pode não querer
ouvir a voz do coração?

o som que vem do morro,
lá de cima vai cantar;
teu choro ao anoitecer
pela manha que não virá.

a beira desta renda,
toca a chama da fogueira.
tu, que notaste minhas pernas
no caminho à ribanceira

sonha, amado
que esta saia torre em teu convés
pois são estas ondas que navegas
que me levarão aos teus pés.

meu riso é fruto da solidão.
quem mais pode querer
ouvir a voz do coração?

terça-feira, 21 de abril de 2009

recusa-me



pendure o casaco,
desamarre as botas,
me encontre bem longe de lá.

pois nestas ruas cinza-chumbo,
mil olhares vivos
só enxergam o que não há.

tua miopia é minha.
anula os tons
que escolheram pra pintar;

um mundo lírico,
monocromático,
saiba, você soube desvendar.

a prosa é simples,
sem vontade de rimar.
não me resta esforço pra convencê-lo:

eu,
não serei o teu par.
de mim tu não precisas mais
que alguém pra nunca abandonar.

amarre as botas,
vista o casaco,
e saia pra me acompanhar;

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Sobre estar só, eu sei
nos mares por onde andei
devagar...

quinta-feira, 2 de abril de 2009

"o amor é o ridículo da vida.
a gente procura nele uma pureza impossível, uma pureza que está sempre se pondo, indo embora...
a vida veio e me levou com ela. sorte é se abandonar e aceitar essa vaga idéia de paraíso que nos persegue; bonita e breve,
como borboletas que só vivem 24 horas;
morrer não dói."

Cazuza